Fuga à Medo: João Braga abandona Portugal após assalto violento à sua casa

A entrevista de João Braga a Daniel Oliveira, exibida este sábado no Alta Definição, ficou marcada por um relato intenso. O artista abriu o coração e levou os espectadores até ao outono de 1974, quando se viu obrigado a abandonar o país e viver no exílio durante dezassete meses.
Tudo começou quando o fadista se encontrava em casa dos sogros, no Estoril, e recebeu um telefonema alarmante de uma vizinha. Do outro lado da linha, descreviam-lhe um cenário caótico à porta da sua residência, em Lisboa.
Militares e civis tinham invadido a habitação, arrombado a porta e levado todos os seus pertences, exibindo um mandado de captura emitido pelo Movimento das Forças Armadas, mas sem qualquer fundamentação explícita. O cantor recordou o momento: “Vieram duas caminhonetas, com jipes atrás, cheios de fuzileiros navais, e alguns tipos à paisana. Arrombaram a porta e levaram tudo o que tinhas dentro. Ali era o mandado de captura emitido pelo Movimento das Forças Armadas. Tinha o seu nome e a sua morada. Não tinha fotografia, nada, zero. Tinha lá uma coisa em branco, o motivo. Onde é que eu fiquei a saber que tinham arrombado a porta da minha casa e levado tudo o que lá estava dentro? Sem motivo”.
Sem ligações políticas ou envolvimento em movimentos revolucionários que justificassem tal medida, João Braga descreveu um sentimento de choque. Perante o desespero, decidiu contactar um amigo próximo, o então coronel António Correia de Campos. A resposta que recebeu foi determinante para o que se seguiu: “Estou, António, é o João. E ele disse-me muito rapidamente, assim que possas, dê por onde der, pira-te daqui para fora. Para Marrocos, para Espanha, para onde tu quiseres. Mas não fiques aqui. E não voltes a ligar para aqui”.
Com a mulher e o filho a seguirem viagem com os sogros rumo a Madrid, o fadista dirigiu-se a Elvas, numa tentativa arriscada de atravessar a fronteira. A primeira abordagem falhou, ao deparar-se com homens armados com metralhadoras G3. Ainda assim, conseguiu manter a serenidade e, com a ajuda de amigas espanholas que viviam na região, elaborou um plano para despistar eventuais barricadas.
“Fui eu com mais três senhoras amigas. Fomos em três carros por causa das barricadas, se houvesse barricadas para terem tempo de voltar para trás. Consegui passar desta maneira”, contou.
“Foram dezassete meses. Eu não sabia se voltava. Não fazia a mínima ideia. Não me despedi de ninguém”, concluiu.







