Ucrânia ‘TRITURA’ nova ofensiva russa e deixa Moscovo em impasse desesperador”

A primavera chegou à Ucrânia e trouxe com ela as condições para uma nova ofensiva russa ao longo da frente. Centenas de veículos e tanques saíram dos seus esconderijos e começaram um esforço renovado para atingir os objetivos estabelecidos por Vladimir Putin, mas que Kiev tem sido capaz de negar. Em resposta, a Ucrânia tem apostado numa precisão cirúrgica: em vez de apenas esperar pelo impacto, as forças de Kiev estão a destruir sistemas de mísseis russos e a paralisar infraestruturas logísticas vitais, para tentar “secar” a máquina de guerra russa antes que esta consiga ganhar território.
“Há um impasse que não é favorável à Rússia. A ideia dos ucranianos é criar desgaste na capacidade de produção de hidrocarbonetos e inovar no campo dos drones e da Inteligência Artificial. Este desenvolvimento tem sido quase pendular, mas não prevejo que a Rússia seja capaz de conquistar o Donbass”, afirma o tenente-general Rafael Martins.
Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW na sigla original), um think tank norte-americano, as forças russas lançaram fortes ataques na região adjacente a Kursk, mas não estão a conseguir progredir. No entanto, há sinais de que uma ofensiva pode estar a ser preparada neste território. Imagens partilhadas online por algumas unidades de elite russas, como os paraquedistas da 106.ª e o grupo de drones Rubicon, mostram que as forças russas estão a conduzir uma campanha sistemática contra as defesas ucranianas na região. Este tipo de ações geralmente antecede uma tentativa de avanço com tropas no terreno.
O principal esforço de guerra russo continua a acontecer na região leste, com o objetivo de empurrar as forças ucranianas da sua fronteira para criar um perímetro defensivo que proteja a região de Belgorod e, em simultâneo, coloque a cidade de Kharkiv à distância da artilharia russa.
O exército russo lançou vários ataques em direção à cidade de Vovchansk e outras regiões. De acordo com as forças armadas ucranianas, as tácticas são as mesmas: ataques de infiltração. Sempre que os militares russos encontram resistência, contornam e procuram progredir evitando ataques diretos às posições defensivas ucranianas. A tática surtiu efeito no ano passado, devido à combinação da vastidão da frente com a falta de militares da Ucrânia. No entanto, o porta-voz de uma brigada ucraniana a operar na região confirma que estas tentativas tiveram pouco sucesso e resultaram em baixas pesadas, algo que é confirmado por vários vídeos partilhados nas redes sociais.
“É provável que assistamos a uma série de combates renhidos, em vez de apenas as forças russas tentarem avançar contra uma defesa ucraniana entrincheirada”, diz Michael Kofman, analista militar da Fundação Carnegie para a Paz Internacional
Além destes ataques, as forças russas parecem estar a tentar pressionar a cidade ucraniana vindos de leste, tentando atravessar o rio Oskil, com as forças russas a reclamar a conquista de algumas localizações a sul de Kupiansk. Recorde-se que o Ministério da Defesa russo chegou mesmo a anunciar a conquista de Kupiansk, mas um contra-ataque ucraniano na cidade acabou por revelar-se uma catástrofe para as forças russas, cercando várias centenas de militares russos, segundo bloggers militares russo que reportaram a situação.
Nesta região, às portas do oblast de Luhansk, a estratégia ucraniana parece passar por vender muito caro qualquer avanço às forças russas, com posições entrincheiradas na floresta e com o uso letal de uma grande concentração de drones FPV. Mas o comando ucraniano também tem focado parte do seu esforço em intensificar os ataques de médio alcance na região, atingindo infraestruturas de apoio, depósitos de armamento e concentrações de tropas. Segundo o Estado-Maior das Forças Armadas ucraniano, foi isso que aconteceu na noite de 23 para 24 de março, quando drones de longo alcance terão atingido “uma concentração de soldados russos” perto de Khoroshe, a 75 quilómetros da linha da frente.
“A Rússia mantém dificuldades no recrutamento e continua a sofrer um número de baixas acima das mil por dia. O tempo a passar não é favorável nem à imagem, nem à eficácia russa”, sublinha o tenente-general Rafael Martins.
Apesar das dificuldades de recrutamento, a Rússia parece mesmo empenhada em conseguir lançar o cerco ao “cinturão de fortalezas” ucranianas no Donbass: as cidades de Kostyantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Slovyansk, que formam uma linha defensiva importante e que são vistas como a chave para a conquista da região de Donetsk. As forças russas já conseguiram atingir os arredores de Kostyantynivka, a cidade mais a sul deste grupo, no entanto, as forças ucranianas têm conseguido recuperar algumas posições, desde que Elon Musk cortou o acesso dos sistemas Starlink aos russos.
A liderança russa não parece, no entanto, disposta a aceitar o fim das comunicações no campo de batalha. Moscovo iniciou o lançamento dos primeiros satélites do projeto Rassvet, uma tentativa de criar um sistema análogo ao Starlink, que garanta as comunicações seguras de banda larga. Embora o ISW aponte para atrasos significativos na produção e uma logística de fabrico ainda deficitária, o objetivo do Kremlin pode permitir que o país consiga restaurar as capacidades de comando e controlo que ficaram severamente amputadas com a ausência dos satélites americanos.
“Os russos também são competentes na inovação. Elon Musk ‘tirou-lhes a ficha’ [com o corte do Starlink] e isso prejudicou significativamente as capacidades russas, mas ambas as partes continuarão a lutar por esta vantagem”, destaca Rafael Martins.
Vídeos geolocalizados pelos analistas do ISW mostram que, apesar dos pequenos avanços ucranianos, a força aérea russa continua a operar com relativa impunidade, conduzindo uma eficaz campanha de bombardeamento. Nas imagens analisadas, as forças russas lançaram várias bombas planadoras FAB-1500 contra as posições ucranianas em Kostyantynivka.
Mais a sul, em Pokrovsk, as tentativas de avanço russas também não têm tido sucesso. O comandante de um batalhão ucraniano revelou que os adversários estão a acumular um grande número de militares, motas e veículos de transporte e tentaram um ataque numa faixa de dez quilómetros, na linha da frente, mas o ataque não teve sucesso. “Eles estão a acumular-se em vários lugares e querem voltar a empurrar-nos”, alerta um comandante ucraniano ao The New York Times.
Estes falhanços russos ganham uma escala diferente com os dados de Robert “Madyar” Brovdi, o arquiteto da estratégia de drones da Ucrânia. Brovdi revela que, desde dezembro, as perdas russas por drones superaram o ritmo de recrutamento do Kremlin, com um défice acumulado de 8.776 soldados face aos substituídos. Esta eficiência brutal, onde cada baixa russa custa apenas 878 dólares em material, de acordo com o comandante, explica por que razão, mesmo no seu eixo de maior sucesso em direção a Kostyantynivka, a força russa apenas conseguiu conquistar 23% do território planeado para a campanha de inverno. “Devemos estar a trocar plástico e metal por russos mortos”, diz o comandante ucraniano. “É a melhor taxa de câmbio.”
Os russos respondem com a intensificação dos ataques com drones de longo alcance, fruto de uma elevada capacidade de produção. No dia 24 de março, a Rússia lançou a maior série de ataques desde que começou o conflito, com quase mil drones de longo alcance. O objetivo russo é aproveitar o desgaste dos stocks americanos, que estão a ser intensamente utilizados no Médio Oriente, e pressionar as muito limitadas defesas antiaéreas ucranianas. Ao contrário de ataques anteriores, que eram curtos e intensos, a Rússia está agora a prolongar a duração dos bombardeamentos para identificar e penetrar nas vulnerabilidades da rede de defesa ucraniana.
A Ucrânia responde com ataques para estrangular as fontes de rendimento russas. Um ataque de drones contra o terminal de petróleo de Primorsk, o maior da Rússia no Báltico, danificou vários tanques de armazenamento, afetando diretamente a capacidade russa de financiar a guerra, apesar do aumento significativo dos preços dos combustíveis, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Imagens partilhadas nas redes sociais e obtidas por empresas privadas de satélite mostram que o incêndio nas instalações dura há vários dias e a extensão dos danos é significativa.
Mas esta estratégia de estrangulamento ucraniana continua a ter um grande foco na região ocupada da Crimeia, onde as forças de Kiev continuam a intercetar e a destruir várias colunas de sistemas de lançamento de mísseis, incluindo dos mísseis hipersónicos Zirkon e dos mísseis balísticos Iskander-M. Ao conseguir degradar estas capacidades antes mesmo de serem utilizados, Kiev expõe as vulnerabilidades da rede de defesa antiaérea russa, que parece ser cada vez mais incapaz de defender os seus sistemas mais caros contra a crescente precisão dos ataques de longo alcance ucranianos.
No entanto, o desfecho da ofensiva de primavera dependerá de fatores que vão além da linha da frente. A saúde financeira do Kremlin, alimentada pelos hidrocarbonetos, continua a ser a sua “bateria recarregada”. Se a Rússia conseguir manter a comercialização a preços elevados, terá fôlego para prolongar o conflito. Mas a concretização de um plano de paz no Médio Oriente pode ter um impacto mais abrangente sobre o esforço de guerra russo. “Se o Irão, um grande aliado, se afastar da Rússia, isso seria um duro golpe”, alerta o major-general.







