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José Carlos Castro Abandona TVI de Imediato e Agarra Novo Projeto na CMTV: ‘Quando Teve Luz Verde, Saí Sem Pensar’

Estás na CMTV desde o arranque. Treze anos depois, esperavas que a liderança fosse tão rápida?

Tão rápida, não. Mas tinha a certeza de que ia ser um sucesso [sorriso]. Eu e o Octávio Ribeiro, ex-diretor do Correio da Manhã, falávamos deste projeto quatro ou cinco anos antes de ele existir. Cruzámo-nos na TVI em 1994, conhecemo-nos bem, jantávamos muitas vezes, discutíamos televisão como quem discute futebol ou política: com paixão e com visão estratégica. Não era conversa de circunstância. Falávamos de linguagem, de proximidade, de romper com a informação excessivamente institucional, de criar uma máquina ágil. Quando o projeto teve luz verde, saí imediatamente da TVI. Podia ter ficado mais algum tempo, mas não quis. Por razões éticas e por convicção. Se acreditava, tinha de dar o passo inteiro.

Foi uma saída emocionalmente difícil?

Foi exigente. Passei por várias fases da TVI – e a TVI teve várias vidas. Tenho carinho por todas. Falei com o José Alberto Carvalho, que era diretor na altura. Conhecemo-nos há 40 anos. Quando lhe disse que ia sair, perguntou-me: “Tens noção de que vais desaparecer?” Não foi provocação. Foi quase proteção. E eu respondi: “Não vou.” Mas aquela frase ficou. Há sempre um segundo de dúvida. Estás a sair de uma casa consolidada para um projeto que ainda é cimento. Literalmente cimento. Lembro-me de entrar no estúdio e ver pó, fios soltos, estruturas por montar. Era isso que tínhamos. E uma ideia.

E muita fé…

Não era fé, era convicção. Começar do zero é raro na vida. Quando cheguei, fiquei responsável pelo desenho técnico: escolha de câmaras, robotização, definição da régie, fluxos entre televisão, online e jornal. A robotização foi uma aposta forte. A lógica de múltiplas janelas também. Quisemos uma televisão com ritmo, com respiração própria. O que não antecipei foi a dificuldade de adaptação humana à tecnologia. Em Portugal quase ninguém trabalhava com aquele nível de automação. No primeiro dia houve câmaras que mexiam sozinhas. [risos] Mas isso faz parte de quem está a abrir caminho.

O que explica a ascensão tão rápida da CMTV?

Os diretos. Diretos em qualquer ponto do País, a qualquer hora. Começámos a usar tecnologia 4G quando outros ainda dependiam de carros de exteriores pesados. Enquanto demoravam quatro ou cinco horas a montar meios, nós já estávamos no ar. Isso muda tudo. As pessoas começaram a perceber que onde havia notícia, estávamos lá. Criou-se uma associação imediata entre acontecimento e presença.

Também houve uma rutura na linguagem.

Passámos das reportagens engravatadas na Assembleia da República para a aldeia da senhora Joaquina. Demos espaço a sotaques, a gente comum, a histórias que não passavam pelo filtro centralista de Lisboa. Houve quem torcesse o nariz. Houve quem achasse que era “paroquial”.

Era?

Não. Aliás, nunca percebi essa ideia de que toda a gente tem de falar um português neutro. Nos Estados Unidos, o jornalista do Texas não fala como o de Nova Iorque. Porque haveríamos nós de falar todos igual? Foi um risco. Podia gerar rejeição. Mas era autenticidade.

Mas houve um preconceito inicial?

Houve. Sobretudo nos pares [pausa]. A ideia de que aquilo não ia durar. Negligenciar um concorrente é sempre um erro estratégico. Foi uma vantagem para nós. Quando começaram a perceber os resultados, já estávamos instalados. Hoje é impossível analisar o panorama televisivo português sem reconhecer que houve um antes e um depois.

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