Sobreviveu 491 dias sequestrado: fome extrema e tortura psicológica chocam o mundo

Eli Sharabi esteve nos túneis do Hamas em Gaza durante mais de um ano, quase sem poder mover-se, com correntes de ferro à volta dos braços e das pernas. No entanto, decidiu apostar na vida em dois momentos-chave: durante o seu cativeiro e no dia da sua libertação.
Após contar a sua odisseia nas Nações Unidas, decidiu escrever um livro, “Refém”, que, segundo ele, foi uma forma de terapia e uma homenagem às 1.200 pessoas assassinadas pelo Hamas a 7 de outubro, entre elas, as pessoas mais próximas dele.
Sharabi viveu quase três décadas no Kibutz Be’eri, no sul de Israel, situado a 4 quilómetros de Gaza. Nascido em Telavive, decidiu instalar-se nesta comunidade pacifista da fronteira israelita, onde conheceu Lianne, uma voluntária britânica que estava de visita.
Ambos se apaixonaram, casaram-se e decidiram ficar em Be’eri. Ali nasceram as suas duas filhas, Noya, de 16 anos, e Yahel, de 13. Muitas vezes, nos últimos anos, o grupo islamista Hamas, que controlou a faixa palestiniana vizinha durante duas décadas, lançou mísseis e rockets sobre território israelita. Sempre que soam as sirenes, têm 15 segundos para correr para o abrigo.
Na madrugada de 7 de outubro de 2023, um sábado em que celebravam a festa judaica de Simchá Torá, Eli percebeu que se tratava de uma situação completamente diferente. De repente, havia todo um esquadrão da ala armada do Hamas, as Brigadas Izzedine al-Qassam, na casa da família Sharabi. Imediatamente lançaram-se sobre o pai, Eli, e arrastaram-no para fora.
Durante 491 dias de cativeiro, Eli tinha um único objetivo: voltar a casa para se reencontrar com a sua família. O caminho até Gaza, juntamente com 255 sequestrados israelitas, não foi nada fácil.
Nos primeiros 52 dias, Eli esteve sequestrado na casa de uma família ligada ao Hamas, no bairro de Nuseirat. O pai de família amarrou-o com cordas para que não pudesse escapar e trazia-lhe comida duas vezes por dia. Frequentemente falava-lhe da sua experiência a trabalhar no centro de Telavive, onde construiu vários edifícios, recordando até os nomes das ruas. O grande receio do guarda palestiniano era que a população do seu bairro descobrisse que Eli e um trabalhador tailandês do Kibutz Be’eri estavam em cativeiro na sua casa. O Hamas lançava mísseis de longo alcance sobre Telavive a partir do bairro de Nuseirat e o exército israelita respondia ao fogo e derrubava edifícios com as suas bombas, um após outro.
Um dia, sem aviso prévio, Eli foi transferido para um túnel do Hamas, onde se encontrou com um grupo de jovens reféns, com os quais permaneceu até à sua libertação. Um deles era o compositor e pianista Alon Ohel, de 22 anos. Alon, que após a sua libertação organizou um concerto multitudinário no Parque HaYarkon, em Telavive, estava prestes a render-se. A fome, as torturas e as humilhações sexuais quase o quebraram psicologicamente. Mas a sua sorte foi que os guardas do Hamas colocaram correntes de ferro nele e em Eli, unindo ambos como siameses. O residente de Be’eri convenceu o jovem músico a apostar na vida.
Eli diz que o terror psicológico era muito comum nos tuneis mas o mais duro era a fome que sentiam, 24 horas por dia.
De noite os guardas do Hamas conversavam com relativa liberdade convencidos que os reféns já tinham adormecido. Mas Eli ouvia tudo e traduzia para os seus companheiros de cativeiro.
Parte dos reféns que regressaram de Gaza revelou que desenvolveu uma relação especial com alguns dos seus captores do Hamas, uma espécie de síndrome de Estocolmo. Foi o caso de Luis Har, o pizzaiolo do kibutz, que revelou que cozinhava para o seu sequestrador do Hamas e que este o barbeava com lâmina, com muito cuidado. Eli Sharabi conta que todas as noites, às 22:00, os guardas do Hamas interrompiam toda a sua atividade para ver uma telenovela turca na televisão.
No seu livro, Sharabi conta que os milicianos do Hamas estavam divididos em dois grupos: os mais velhos que em muitos casos tinham trabalhado em Israel no passado e os mais jovens que pisaram território israelita pela primeira vez no dia do massacre de 7 de outubro.
O refém israelita relatou a sua experiencia nas Nações Unidas e foi assim que nasceu a ideia de escrever o livro. Até agora venderam-se mais de 300.000 livros em Israel, nos EUA e na Europa.
O refém israelita foi recebido por vários lideres internacionais e expressa sempre a sua preocupação pelo que define como a maior onda de antisemitismo no mundo desde a II Guerra Mundial.
No dia 8 de fevereiro de 2025, Sharabi entendeu que finalmente ia ser libertado. Na última semana e pela primeira vez em um ano e meio, os guardas tinham-lhe retirado as cadeias de ferro das pernas e dos braços.
Os corpos da esposa Liane de 48 anos e das duas filhas as adolescentes, Noya e Yahel, tinham sido encontrados. A mãe e as filhas estavam abraçadas. As 3 foram executadas pelos homens do Hamas pouco depois do sequestro de Eli. Apesar de entender que perdeu a mulher, as filhas e o irmao Yosi assassinado nos tuneis, Eli decidiu viver e contar. Para que nunca se repita.
O refém de Gaza não quis estar presente no dia em que as ruínas da sua casa no kibutz Be’eri, na qual os seus entes queridos foram executados a sangue frio, foram destruídas pelas máquinas de demolição. Ainda assim, Eli pediu ao fotógrafo dos reféns, Adar Eyal, que lhe mostrasse as provas do que aconteceu. Eli Sharabi conta que, frequentemente, fala em voz alta com a sua mulher, com as suas filhas e com o seu irmão.





