Ruy de Carvalho surpreende: chamado de “Iron Man” pela família após vários sustos de saúde! “Gosto da vida”

Ruy de Carvalho, de 99 anos está de volta ao palco, depois de ter enfrentado recentemente um pequeno enfarte e um AVC. O regresso está marcado para 22 de abril, no Coliseu do Porto, com a peça A Ratoeira, de Paulo Sousa Costa. Mas, ainda antes de voltar a pisar o palco, o ator será agraciado na Assembleia da República com um Voto de Saudação.
Ruy de Carvalho – Estar em casa sem fazer nada, quando posso estar a fazer o que gosto, é muito, muito melhor. Como tenho o hábito de passar mentalmente os textos das peças que estou a fazer, creio que não me esqueci de nada mas, mesmo assim, vou fazer alguns ensaios para não falhar perante os colegas e o público. Espero cumprir. Não é por falta de vontade, é amor pela profissão que escolhi.
Terá de ter alguns cuidados neste regresso ao palco?
Sim. Vou com a minha filha e com toda uma companhia que me trata como pai e avô. Ainda me canso um pouco, mas é natural. Vou a caminho dos 100 anos, não é? O Porto foi a escolha da produtora. Mas estou muito feliz, porque é uma cidade que adoro e que conheço muito bem. É a cidade onde tive a honra de ser diretor do Teatro Experimental do Porto (TEP), uma companhia exemplar que ainda hoje existe, mas há uns anos em Vila Nova de Gaia, graças a um amigo meu e da Cultura, Luís Filipe Menezes. Se não fosse ele, o TEP teria acabado depois do incêndio, pois o então presidente da Câmara do Porto não quis saber do assunto.
Com 99 anos e a trabalhar, tem alguma meta para parar? Pensa nesse dia? Como o idealiza?
Não. Por momentos ainda pensei nisso. Depois, melhorei e voltei. Quando tiver que ser, será.
Como está a sua saúde neste momento?
Com fisioterapia de segunda a sexta e boa comida, as coisas estão a encaminhar-se. Emagreci muito no hospital e fiquei quase sem capacidade motora. Mas já consigo andar mais ou menos bem. Já faço a maioria das coisas sozinho. Não faço mais, porque não me deixam. Aqui os meus filhos, em especial a minha filha, foi perentória: ‘Sozinho nunca mais. Tens de ter apoio em casa’. A minha fisioterapeuta quer que eu tenha um apoio extra, uma bengala, e eu disse que sim. Por acaso é a bengala da minha mulher.
No dia em que teve o AVC e o enfarte, qual foi o seu maior medo? Percebeu tudo o que estava a aconteceu?
Percebi. Primeiro fiquei um pouco baralhado, o que é normal, mas depois, caiu a ficha. Eu estava a preparar-me para ir para o teatro e não sei o que aconteceu. Como tinha o péssimo hábito de fechar a porta à chave e tirar a chave, como não chegava a ela, não conseguia abrir a porta, porque caí no chão, num sítio sem apoio para me levantar. Como estava meio vestido, e tenho o hábito de abrir as janelas para arejar a casa, imaginam o frio que apanhei. Mas já passou. Felizmente o senhor que me ia buscar avisou o teatro e alguém chamou de imediato a minha filha que foi a correr para minha casa e depois tratou de tudo, com o irmão.
Como recorda esse dia e os seguintes?
Foram difíceis, mas já passaram. Fui visitado por muitos amigos. Amigos e familiares que me deram muito amor e carinho, tal como os médicos e equipas que trataram de mim. Nunca me esquecerei deles. Até hoje fui sempre bem tratado em todos os hospitais onde estive, em especial públicos. Desta vez, estive num hospital privado, por decisão familiar, nos Lusíadas, e na verdade só posso dizer: Obrigado. Salvaram-me.
A sua filha Paula diz que tem sete vidas como os gatos… Qual é o seu segredo?
Pelas contas dela já gastei quatro vidas. Dois cancros, uma queda que ia sendo fatal em Portalegre e agora esta brincadeira. Já não tenho idade para mais vidas. A família, na brincadeira, diz que sou o Iron Man. Não sou. Apenas gosto da vida e do que ela tem de belo. E, de momento, são os meus filhos, os netos, os lindos bisnetos, os amigos e o Teatro.






